03. ANTES E DEPOIS DA IMAGEM

Um olhar sobre a abstração e a geometria no acervo Houssein Jarouche / CURADORIA LUISA DUARTE / 30 NOV - 27 JAN 2018

Antes e depois da imagem: um olhar sobre a abstração e a geometria no acervo Houssein Jarouche: este título procura instaurar uma inflexão em meio a um projeto que abriu as portas, ainda esse ano, tendo como DNA a Pop Art – tanto por meio de edições de grandes mestres norte-americanos quanto de obras assinadas por ícones da Nova Figuração Brasileira. Sabemos que a primeira equação pop – arte é igual a mercadoria – tem o seu paroxismo na obra de Andy Warhol. O artista não apenas produzia em série, como chamava seu ateliê de “fábrica”. Testemunhamos o mesmo tratamento formal à imagem do luto de uma primeira-dama no enterro do marido assassinado (Jackie O.) e a uma lata de sopa ou de sabão em pó (Campbell e Brillo). Essa é a sua sofisticação maior. Antever o embaralhamento completo da aura. A pop art articula, no campo artístico, uma sociedade de consumo nascente no pós-guerra e, com ela, uma acidez crítica, de caráter ambíguo, já que tanto promovia quanto ironizava a junção de uma imagem banal e o mundo da mercadoria. Estamos, assim, diante de um procedimento poético/político no território da arte, que sublinha o embaralhamento entre realidade e cópia, simulacro e real.

Antes e depois da imagem busca uma tonalidade afetiva diversa à da pop art. A mostra é fruto de uma pesquisa que detectou, no acervo da galeria, um conjunto de obras que se vincula ao legado ora minimal, ora abstrato, ora geométrico, ora atravessado por um acento pop, mas sem abrir mão de uma natureza construtiva. Essa observação curatorial, que se dedicou ao acervo da galeria, selecionou trabalhos de artistas de diferentes gerações e latitudes: Ann Hamilton (1956) , Ed Ruscha (1937), Frank Stella (1936), Geraldo de Barros (1923 – 1998), Iran do Espírito Santo (1963), Ivan Serpa (1923–1973), Judith Lauand (1922), Luiz Zerbini (1959) , Max Bill (1908–1994), Rodrigo Torres (1981).

Seria uma tarefa destinada à incompletude buscar, no espaço deste breve texto, situar historicamente cada um dos nomes acima, contextualizando- os em uma linha do tempo do século XX, a fim de estabelecer elos com o passado e o presente. Mas podemos enunciar algumas aproximações breves. O primeiro andar alinhava Ed Ruscha, artista histórico que converge pop e minimal (é preciso perceber que as suas cartografias geométricas hospedam palavras à espera de sentido). Em seguida testemunhamos um diálogo com serigrafias do suíço Max Bill (1908-1944): sabemos que o concretismo, um tipo particularmente rígido de abstração geométrica que se desenvolveu na Europa na primeira metade do século XX, teve em Bill uma de suas figuras centrais. Já Frank Stella surge com trabalhos sutis, diretamente ligados à série de suas consagradas “Black Paintings”. Quem dialoga com Stella é Ann Hamilton. Uma cuidadosa trama une, por sua vez, Lauand, Serpa, De Castro, Geraldo de Barros, Max Bill e Iran do Espírito Santo, no segundo andar. Em cada momento, um artista contemporâneo brasileiro se faz presente em meio a nomes de gerações e latitudes diversas – Zerbini e Iran. Um ato simples, mas que sinaliza a amplitude do diálogo proposto.

Incorporadas todas essas etapas, importantes para a compreensão de um certo fio mínimo da história da arte, o que nos interessa se encontra no gesto capaz de instaurar alguma diferença diante do ruído generalizado do mundo atual. As obras aqui reunidas solicitam silêncio, pausa – se possível, um olhar paciente, passível de aproximações e distâncias. A sutileza que não se confunde com fragilidade presente na maior parte dos trabalhos de Antes e depois da imagem: um olhar sobre a abstração e a geometria no acervo Houssein Jarouche, a meu ver, tem a chance de inspirar um outro modo de habitar o tempo, em meio a uma época constantemente ansiosa, acelerada, tanto quanto, por vezes, vazia de sentido. “Olhar o passado faz sentido à luz da urgência do presente”, nos lembra Walter Benjamin. Eis a forma potente de nos apropriarmos desse acervo hoje pensado, exibido e, portanto, vivo.

02. FRAUENPOWER

a figura feminina a partir da pop art / curadoria paulo azeco / de 16 de setembro a 25 de novembro 2017

Frauenpower, expressão alemã utilizada para designar o poder feminino define de maneira certeira o trabalho da artista Pop Kiki Kogelnik, austríaca radicada em Nova York.

A pesquisa sobre a sua produção, mais especificamente a série “Woman” da década de 1970, surge como alicerce desta exposição. Estes trabalhos se distanciavam de alguns dos principais preceitos ideológicos da Pop Art, evitando a celebração do comércio e dos objetos cotidianos. O ponto fundamental neles é a imagem feminina; ora frágil, ora sexualizada, conforme retratada na publicidade da época. São trabalhos discretamente feministas, irônicos e com forte carga imagética Pop.

A partir disso, reconhecendo a arte como veículo de significação e comunicação visual, pretende-se investigar a imagem da mulher retratada, e a mídia como influenciadora da construção de um imaginário do corpo feminino. A exposição tem como foco, resgatar um percurso histórico das representações visuais da mulher a partir das vanguardas da década de 1960. E busca discutir questões relevantes sobre a idealização do corpo feminino, a construção de padrões estéticos– e uma possível resistência a esses padrões, bem como, analisar questões sociais e antropológicas dessas imagens.

A reflexão sobre o trabalho de Kogelnik transita entre temas fundamentais do movimento Pop e que se desdobram na contemporaneidade. O ideal de beleza e perfeição, arquétipo da Vênus de Botticelli, surge como base da construção dos processos de autoimagem e consequentemente, negação e afirmação, vistos nos trabalhos de Marina Abramovic, Sandra Gamarra e Lenora de Barros, e que encontram na figura da musa ( ícone ) seu contraponto, característica fundamental na produção de Andy Warhol e Russel Young.

A exposição aborda ainda a questão do consumo a partir da objetivação dos corpos, sexualização e misoginia e a consequente influência imagética feminina na figura masculina, transcendendo limitações de gênero, observados nas imagens de Vânia Toledo, Nan Goldin e Carlos Vergara.

01. TERRE HAUTE HIGHLAND: POP ART

coletiva inaugural da galeria / curadoria sofia gotti / de 04 de julho a 09 de setembro de 2017

A exposição inaugural da Galeria Houssein Jarouche apresenta trabalhos em papel de artistas do Reino Unido, Brasil e EUA, selecionados a partir do acervo da galeria. Através da lente da Pop Art, direciona a nossa atenção para alguns dos problemas que ocuparam a geração da década de 1960, com os quais continuamos a nos preocupar até hoje. Evitando uma ordenação cronológica ou geográfica, queremos destacar as inúmeras conversas que emergem entre as obras produzidas internacionalmente ao longo de um período de cinquenta anos.

Terre Haute (Terras altas) – que também dá nome à exposição – é uma cidade no vale Wabash no estado de Indiana, E.U.A. Originalmente uma aldeia indígena chamada Weautuno, foi renomeada pelos exploradores franceses no começo do século XVIII, ápice da era das colonizações. Robert Indiana, figura no panteão dos principais artistas da Pop Art americana, usou esse nome em diversos trabalhos, fazendo interpretações da área atravessada pela estrada de ferro Wabash. Esses trabalhos “sobre geografia”, nas próprias palavras de Indiana, chamam a atenção crítica para os nomes traduzidos da cidade e do vale Wabash, que é a grafia em inglês da palavra que os índios Miami usam para designar ‘rio’.

Essa breve história sobre o nome Terre Haute captura muitas das questões que a Pop Art levanta, enquanto entendida como uma categoria artística internacional, abordadas nas obras expostas: nomeação, tradução, imperialismo e exploração. O Pop surgiu internacionalmente ao final dos anos 1950 e começo dos anos 1960 em resposta a uma mudança no ritmo do dia a dia, à proliferação da cultura comercial e ao movimento de liberação sexual. Desafiando a separação entre ‘alta arte’, elitista por definição, e ‘arte popular’, caracterizada pela acessibilidade e seu uso de lugares comuns.