ANTES E DEPOIS DA IMAGEM

LUISA DUARTE, SÃO PAULO, NOVEMBRO 2017

Antes e depois da imagem: um olhar sobre a abstração e a geometria no acervo Houssein Jarouche: este título procura instaurar uma inflexão em meio a um projeto que abriu as portas, ainda esse ano, tendo como DNA a Pop Art – tanto por meio de edições de grandes mestres norte-americanos quanto de obras assinadas por ícones da Nova Figuração Brasileira. Sabemos que a primeira equação pop – arte é igual a mercadoria – tem o seu paroxismo na obra de Andy Warhol. O artista não apenas produzia em série, como chamava seu ateliê de “fábrica”. Testemunhamos o mesmo tratamento formal à imagem do luto de uma primeira-dama no enterro do marido assassinado (Jackie O.) e a uma lata de sopa ou de sabão em pó (Campbell e Brillo). Essa é a sua sofisticação maior. Antever o embaralhamento completo da aura. A pop art articula, no campo artístico, uma sociedade de consumo nascente no pós-guerra e, com ela, uma acidez crítica, de caráter ambíguo, já que tanto promovia quanto ironizava a junção de uma imagem banal e o mundo da mercadoria. Estamos, assim, diante de um procedimento poético/político no território da arte, que sublinha o embaralhamento entre realidade e cópia, simulacro e real.

Antes e depois da imagem busca uma tonalidade afetiva diversa à da pop art. A mostra é fruto de uma pesquisa que detectou, no acervo da galeria, um conjunto de obras que se vincula ao legado ora minimal, ora abstrato, ora geométrico, ora atravessado por um acento pop, mas sem abrir mão de uma natureza construtiva. Essa observação curatorial, que se dedicou ao acervo da galeria, selecionou trabalhos de artistas de diferentes gerações e latitudes: Ann Hamilton (1956) , Ed Ruscha (1937), Frank Stella (1936), Geraldo de Barros (1923 – 1998), Iran do Espírito Santo (1963), Ivan Serpa (1923–1973), Judith Lauand (1922), Luiz Zerbini (1959) , Max Bill (1908–1994), Rodrigo Torres (1981).

Seria uma tarefa destinada à incompletude buscar, no espaço deste breve texto, situar historicamente cada um dos nomes acima, contextualizando- os em uma linha do tempo do século XX, a fim de estabelecer elos com o passado e o presente. Mas podemos enunciar algumas aproximações breves. O primeiro andar alinhava Ed Ruscha, artista histórico que converge pop e minimal (é preciso perceber que as suas cartografias geométricas hospedam palavras à espera de sentido). Em seguida testemunhamos um diálogo com serigrafias do suíço Max Bill (1908-1944): sabemos que o concretismo, um tipo particularmente rígido de abstração geométrica que se desenvolveu na Europa na primeira metade do século XX, teve em Bill uma de suas figuras centrais. Já Frank Stella surge com trabalhos sutis, diretamente ligados à série de suas consagradas “Black Paintings”. Quem dialoga com Stella é Ann Hamilton. Uma cuidadosa trama une, por sua vez, Lauand, Serpa, De Castro, Geraldo de Barros, Max Bill e Iran do Espírito Santo, no segundo andar. Em cada momento, um artista contemporâneo brasileiro se faz presente em meio a nomes de gerações e latitudes diversas – Zerbini e Iran. Um ato simples, mas que sinaliza a amplitude do diálogo proposto.

Incorporadas todas essas etapas, importantes para a compreensão de um certo fio mínimo da história da arte, o que nos interessa se encontra no gesto capaz de instaurar alguma diferença diante do ruído generalizado do mundo atual. As obras aqui reunidas solicitam silêncio, pausa – se possível, um olhar paciente, passível de aproximações e distâncias. A sutileza que não se confunde com fragilidade presente na maior parte dos trabalhos de Antes e depois da imagem: um olhar sobre a abstração e a geometria no acervo Houssein Jarouche, a meu ver, tem a chance de inspirar um outro modo de habitar o tempo, em meio a uma época constantemente ansiosa, acelerada, tanto quanto, por vezes, vazia de sentido. “Olhar o passado faz sentido à luz da urgência do presente”, nos lembra Walter Benjamin. Eis a forma potente de nos apropriarmos desse acervo hoje pensado, exibido e, portanto, vivo.

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